Riqueza onde há pobreza


Acredito que umas das coisas mais valiosas da vida é ouvir histórias de pessoas. Adoro histórias de superação, de sucesso, de crescimento. Simplesmente adoro!

Para quem não me conhece, passei grande parte da minha vida morando em Brasília. Até me casar, morei na Asa Sul e Lago Sul, que eram e de certa forma ainda é, os melhores lugares para se morar. Brasília é rodeada de cidades, chamadas cidades satélites. A renda é menor e em alguns casos muito menor.

No Plano Piloto, não existem favelas. Também não existem morros. As favelas começam em algum lugar e em alguns casos crescem e viram cidades. Enquanto não vira cidade, é  um lugar não muito próprio para se viver. A pobreza reina. 

Um dia fui visitar uma amiga que mora num desses lugares. Nunca tinha ido antes. As ruas são de barro e nenhuma casa é pintada. Todas de tijolo aparente. Tem muito lixo na rua e animais também. A situação vai melhorar, mas por enquanto está assim.

Como cresci no Plano, confesso que fiquei muito chocada em conhecer essa realidade que a gente só vê nos jornais (eu pelo menos). Fiquei tão chocada que adoeci. Fiquei uma semana de cama. Era tudo muito difícil para mim. No fundo no fundo eu pensava: Dá pra viver aqui? Como alguém vive assim? Eu olhava as ruas, as casas, as crianças brincando. Que realidade tão diferente do que sempre vivi.

Voltando à visita, estávamos conversando na varanda da casa da minha amiga, que não tinha muro, quando chega de repente a vizinha da frente com sua filhinha. Me lembro que a vizinha estava muito feliz e animada e sua filhinha estava toda arrumadinha. Cabelo preso, vestido lindo... uma graça! Fiquei encantada com a criança.

Começamos a conversar assuntos do dia a dia quando essa mãe  diz toda feliz que tinha conseguido um tratamento para a filha (que tem síndrome de down) em uma escola X e que ela iria na estimulação no lugar Y  e que o desenvolvimento da filha estava indo bem. Continuou contando que as vezes ela levava 2 hr de ônibus para chegar ao médico devido ao engarrafamento, mas que as vezes acontecia de ter que ir e voltar porque o médico não estava. E beijava a filha, era uma felicidade só. E sempre dizia: Graças a Deus por isso, por aquilo...

Com toda a sinceridade, confesso a vocês que a postura dela me chocou profundamente. Comecei a pensar em onde ela morava, na casa, na filha deficiente, no trabalho que dava ela levar essa filha de ônibus duas horas para ir e duas para voltar. E ela ali, feliz da vida agradecendo a Deus!!!! Como pode???

Naquele dia voltei para casa e decidi nunca mais reclamar da vida. Reclamo se pego 10 minutos de engarrafamento sentada no meu carro no ar condicionado. Reclamo se meu filho tem uma gripe e acorda de madrugada. Reclamo do meu apartamento grande que não cabe todas as minhas coisas. Reclamo do médico que atrasa a consulta em meia hora. Reclamo se viajo de férias e o avião balança ou a comida é ruim. Se eu for continuar, não vai caber tanta reclamação!

Naquele dia, descobri que não é preciso ter muitas coisas para ser feliz. Ter  coisas é ótimo, mas sem um coração grato, não é nada. 

Eu até entendi mais o que Jesus queria dizer em como é difícil um rico entrar no Reino dos Céus.

Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus Mt 19:23

Como nunca fui rica, achei que eu não me encaixava nesse versículo. Dessa eu me livrei, sempre pensei! Grande engano!
Ali eu era rica, ingrata e arrogante. Que beleza! E ainda pra completar o "desastre", bem alheia às necessidades físicas do próximo.Quebrei a cara!!!!!

Ali, naquele lugar "pobre", encontrei uma riqueza valiosíssima. 
Encontrei uma pessoa com muito pouco, pobre, mas rica. Rica de coração, de gratidão e de atitude.
Que grande lição aprendi naquele dia.

"Obrigada Senhor pela oportunidade de ouvir aquela linda história. Quero ouvir muitas outras assim"
MC


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