Um espaço para dúvidas

Tirei o trecho abaixo de um livro que gosto muito chamado "O Deus (In)visível - Como se relacionar com um Deus que não podemos ver, ouvir e tocar" de Philiph Yancey, um jornalista americano.

Se brincar um dos meus livros favoritos pois estou na terceira releitura. O trecho abaixo foi tirado do capítulo 2 - Um espaço para dúvida.

Antes do texto propriamente dito, quero deixar outro pequeno para reflexão sobre a fé. Qual o seu tipo de fé. Tipo "se" ou "ainda que"?

" Servi no ministério 30, quase 31 anos. Consegui compreender que existem dois tipos de fé. Uma diz "se", a outra, "ainda que". Uma diz: "Se tudo estiver bem, se minha vida prosperar, se eu for feliz, se nenhum ente querido  morrer, se eu tiver sucesso, então crerei em Deus,  farei minhas orações, irei à igreja e darei do que disponho". A outra diz, no entanto: " Ainda que a causa do mal prospere, ainda que sofra no  Getsêmani, ainda que eu beba do cálice no Calvário, ainda assim, e pricipalmente então, confiarei no Senhor que me criou" Por isso Jó exclamou: "Ainda que ele me mate, confiarei nele".  George Everett Ross


_______________________________________

Certa vez, recebi a visita de um amigo no fim de junho, início do verão, com o propósito especifico de escalar montanhas. A neve do final da estação tornava inacessíveis quase todas, por isso escolhemos uma das mais fáceis: o monte Shermam. Normalmente, o montanhista pode seguir uma trilha agradável que vai dar no topo visível. Contudo, depois do início da trilha, percebemos que uma tempestade veranil de neve mudava tudo. Às vezes as nuvens se afastavam o suficiente para vistarmos o que achávamos ser o topo, mas então o céu ficava completamente encoberto e misturava-se à neve, formando uma massa branca uniforme.

Os falsos cumes, que existem em muitas montanhas, são uma provação para o montanhista. Por três horas, olha-se para o topo a cada segundo. Os olhos são atraídos por uma força como a da gravidade; não se resiste e olha-se para o topo maciço que atrai para cima. Então, exatamente quando se alcança o topo, percebe-se que não é o topo coisa nenhuma. A perspectiva de baixo era enganosa. Percebe-se que o verdadeiro topo está um quilometro à frente. Ou será outro falso topo?

Ao subir o monte Shermam, começamos com neves e nuvens, terminamos com neve e nuvens e vimos pouca coisa no caminho. Quando uma verdadeira nevasca se estabelece, perde-se toda noção do horizonte e não dá para se dizer se se está subindo, descendo ou andando de cabeça para baixo. Perde-se a visão, o que, em montanhas tão íngremes como as Rochosas, pode ser fatal.

Eu e meu amigo pensamos em voltar, mas decidimos o contrário. Sentávamos para esperar as nuvens se dissipar um pouco, escolhíamos um ponto, traçávamos  uma rota e então prosseguíamos. Quando as nuvens se fechavam, sentávamos na neve derretida e aguardávamos nova brecha. Ficar sentado na neve, no meio de uma nuvem, ouvindo estrondos sonoros por todos os lados, faz a gente questionar mapas, bússolas, os sentidos do corpo e a própria razão.

As nuvens afastaram-se o suficiente para vislumbrarmos uma saliência  que conduzia diretamente ao verdadeiro topo, e com cuidado conseguimos chegar lá. O cilindro sinalizando o topo, coberto de neve, indicava que éramos os primeiros montanhistas da estação a escalar o monte Shermam. Então aconteceu algo engraçado. As nuvens dissiparam-se, e pudemos enxergar as encostas. O caminho que levamos horas para subir foi percorrido em menos de uma hora na descida -  de costas, escorregando como em um tobogã sobre as encostas cobertas pela neve recente.

A escalada, conforme refleti mais tarde, lembrou-se do que aprendi sobre a peregrinação da fé. Inclui erros de cálculo, grandes emoções e dificuldades, longos períodos de espera e uma caminhada cansativa. Por mais que se esteja preparado e se tomem as precauções, nunca se consegue eliminar todos os riscos. Sempre há momentos de tempestade em que não se consegue enxergar nada e em que as avalanches ressoam por todo lado.

Quando, porém, se chega ao topo, nada no mundo se compara ao sentimento de conquista e exaltação. Mas o monte Shermam, ainda, não passa de uma montanha de quatro mil metros no Colorado. Há outras 52 para escalar.